
O que antes era tratado como expectativa passou a ser percebido de forma mais concreta no dia a dia da cidade. Um dos sinais dessa mudança está no retorno de moradores que haviam deixado Inocência em busca de estudo e trabalho em outros centros. Agora, com o aquecimento da economia local, parte dessas famílias volta a enxergar possibilidade de permanecer ou recomeçar no município.
Esse movimento aparece na história do empresário Leandro Rodrigues dos Santos, dono do LL Hotel. Nascido em Inocência, ele conta que precisou sair ainda jovem, assim como os irmãos, por falta de oportunidades. Depois de trabalhar em outros estados, decidiu apostar no crescimento da cidade quando percebeu um aumento na movimentação econômica da região, ainda antes da confirmação da fábrica da Arauco.
A expectativa inicial era construir um hotel com 14 apartamentos, mas o projeto precisou ser ampliado durante a obra. Hoje, o empreendimento tem 28 quartos e, segundo o empresário, mantém alta ocupação. O hotel também passou a gerar empregos para moradores da cidade, refletindo uma mudança que vai além dos números e alcança a reorganização da vida familiar de quem havia ido embora e agora retorna.
No comércio, a percepção é parecida. João Pedro Luiz Azambuja, do CH Food Park, relata que o fluxo maior de pessoas ajudou a impulsionar o negócio. O empreendimento começou de forma simples, com lanches artesanais vendidos por delivery dentro de casa, e depois ganhou espaço próprio no centro de Inocência.
Com o crescimento da demanda, o negócio foi ampliado e hoje reúne mais de dez colaboradores. Para o comerciante, a melhora financeira permitiu investir na estrutura da empresa e trazer mais estabilidade para a família. A expansão, segundo ele, foi construída em conjunto com parentes que participam da administração e da operação do local.
A nova fase também é percebida por quem acompanha mais de perto a atividade econômica do município. Produtora rural e empresária do setor de combustíveis, Lina Luíza Campos observa que o centro de Inocência passou a ter outro ritmo, com estabelecimentos funcionando por mais tempo, inclusive aos domingos e feriados, para atender ao aumento da procura.
Segundo ela, o cenário também tem levado empresários locais a buscar mais qualificação e novas estratégias para competir em uma cidade que se transforma rapidamente. Como presidente da Associação Comercial, Lina afirma que a abertura de empresas vem se tornando mais frequente, em um ambiente que exige profissionalização e adaptação.
Além do impacto direto nos negócios, a transformação também tem sido associada a investimentos em áreas públicas. De acordo com informações da Arauco, o Plano Estratégico Socioambiental do Projeto Sucuriú reúne ações voltadas a saúde, educação, infraestrutura e geração de renda, em articulação com o poder público e a comunidade.
Entre os efeitos citados estão ampliação de vagas na educação infantil, melhorias no transporte escolar, reforço na estrutura de saúde e avanços na organização dos serviços públicos. Também aparecem investimentos em pavimentação, drenagem, rede de fibra óptica e apoio ao processo de homologação de pista de pouso, com reflexos na mobilidade e na logística da região.
Na educação, um dos pontos destacados é o desempenho de Inocência no Encceja, exame voltado à certificação de jovens e adultos. O índice de aprovação informado no material é de 63%, acima da média nacional de 12,5%. O resultado é relacionado à oferta de curso preparatório gratuito em parceria com a prefeitura, em um momento em que a qualificação profissional passa a ter peso maior para quem busca espaço nas novas oportunidades criadas na cidade.
A certificação também se conecta a outras iniciativas de formação. Uma delas é o programa Abrace este Projeto, realizado em parceria com o Senai, com oferta de 560 vagas em cursos técnicos gratuitos voltados à indústria de celulose e bolsa-auxílio aos participantes, segundo a empresa.
Na área da saúde, os investimentos não se limitam ao município. Em Três Lagoas, que atende casos de média e alta complexidade da região, a Arauco informou repasse de R$ 2,3 milhões para reforço hospitalar e ampliação de exames e consultas especializadas, o que também pode beneficiar pacientes de Inocência e de cidades vizinhas.
O Projeto Sucuriú marca a entrada da divisão de celulose da companhia no Brasil. O investimento anunciado é de US$ 4,6 bilhões, com previsão de construção de uma planta capaz de produzir 3,5 milhões de toneladas de fibra curta de celulose por ano. A área fica a cerca de 50 quilômetros do centro de Inocência, ao lado do Rio Sucuriú. A terraplanagem começou em 2024, e a previsão de operação é para o fim de 2027.
Durante a fase de obras, a estimativa é de mais de 14 mil oportunidades de trabalho. Depois do início das operações, a projeção informada pela empresa é de cerca de 6 mil empregos nas áreas industrial, florestal e logística. A expectativa é que esse movimento continue influenciando a arrecadação, a renda e a atração de novos investimentos para a cidade e para o entorno regional.
Ao completar 67 anos, Inocência vive, portanto, um momento em que o crescimento econômico começa a deixar marcas concretas no cotidiano. O município vê aumentar a circulação de pessoas, os negócios se expandem, famílias retornam e a estrutura urbana tenta acompanhar uma nova fase. Para uma cidade que durante muitos anos conviveu com a saída de moradores em busca de oportunidade, o cenário atual aponta para uma inversão desse caminho.





Valdei José (MTE 1134/MS) é Jornalista Profissional e Editor-chefe do JBR – Jornal Brasil Regional. Com Registro e foco em apuração ética e transparência, sua missão é cobrir os fatos do Brasil e Regiões. Acesse o perfil completo e conheça as áreas de expertise.

