Um estudo recente do NetLab, laboratório vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, revelou uma preocupante realidade sobre a presença de canais misóginos no YouTube brasileiro. Com pelo menos 123 canais ativos, essa rede de conteúdos que dissemina discursos de ódio contra mulheres já alcançou a impressionante marca de mais de 23 milhões de inscritos e cerca de 130 mil vídeos publicados.
Crescimento Alarmante de Inscritos
Os dados, divulgados na segunda-feira (9), logo após o Dia Internacional da Mulher, mostram que, desde um levantamento feito em 2024, apenas 14 canais foram excluídos da plataforma, seja por iniciativa de seus donos ou da própria plataforma. Em contrapartida, 20 canais mudaram de nome, mas muitos continuam a veicular conteúdo misógino sob novas identidades. O aumento no número de inscritos foi significativo, com um crescimento de 18,5% desde abril de 2024, resultando em mais de 3,6 milhões de novos assinantes.
Monetização e Lucros com o Discurso de Ódio
Os criadores desses conteúdos não apenas disseminam mensagens de ódio, mas também lucram com isso. Aproximadamente 80% das contas analisadas utilizam estratégias de monetização, que incluem anúncios do YouTube e programas de membros, além de alternativas como vendas de e-books e transferências via pix. A pesquisadora Luciane Belín, do NetLab, ressalta que a misoginia se transformou em um nicho lucrativo, onde a humilhação e subjugação das mulheres se convertem em oportunidades financeiras.
Definição de Misoginia e Conteúdos Identificados
O estudo adotou um conceito amplo de misoginia, abrangendo não apenas o ódio explícito, mas também o desprezo e a aversão às mulheres. Para determinar quais canais eram misóginos, foi considerado que cada um deveria ter ao menos três vídeos contendo discursos de ódio. O tema mais prevalente, que abrange 42% dos vídeos, é o ‘Desprezo às mulheres e estímulo à insurgência masculina’, onde homens são incitados a não se submeter às mulheres e a tratar essas últimas com desprezo.
Estratégias de Encobrimento e Imagens Ofensivas
Além do conteúdo verbal, muitos influenciadores utilizam táticas para encobrir suas mensagens, como o uso de abreviações e termos alternativos. Por exemplo, a palavra ‘mulher’ pode ser substituída por ‘colher’, enquanto mães solo são referidas de forma desdenhosa como ‘msol’. Imagens que retratam as mulheres em posições subservientes ou hipersexualizadas também são comuns, reforçando a mensagem misógina de maneira visual.
Responsabilização das Plataformas e Propostas de Ação
Luciane Belín enfatiza a necessidade de maior responsabilização das plataformas digitais. Ela sugere que a criminalização da misoginia poderia ajudar a conter esses discursos, além de destacar a importância de discutir o papel das plataformas na soberania nacional. Para ela, se determinadas condutas são consideradas crime fora da internet, também deveriam ser tratadas como tal dentro do ambiente digital.
Silêncio da Google e a Necessidade de Ação Imediata
Até o momento, a Google, responsável pelo YouTube, não se manifestou sobre as preocupações levantadas pelo estudo. A situação exige uma resposta ativa não apenas da plataforma, mas também da sociedade como um todo, que deve se mobilizar para enfrentar a disseminação de discursos de ódio e promover um ambiente mais seguro e respeitoso para todos.
Em suma, o crescimento dos canais misóginos no YouTube brasileiro é um sinal alarmante que não pode ser ignorado. A luta contra a misoginia e a promoção da igualdade de gênero devem ser prioridades, tanto nas políticas das plataformas digitais quanto nas ações da sociedade.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br


